Abri os olhos, plena segunda-feira. Eu poderia sentir cheiro de puteiro, mas abri os olhos e vi saudade em todos os quatro cantos do quarto. Havia uma cama vazia, sem uma tela, e no canto direito um copo sem água à semanas, a camiseta sem cheiro devido a lavagem estava guardada na caixa dentro do guarda-roupa a minha frente.
- É apenas um surto. Eu pensei.
O cheiro que vinha da cozinha era de carne moída. Me levantei vagarosamente, esfregando os olhos que ainda relutavam para permanecerem fechados, na panela a carne se juntava a batata.
- Pô mãe, tu não é vegetariana? Resmunguei.
Meu dia foi longo, sem bom dia ou boa noite, sem bilhete na cama, sem 'como foi o dia' ou 'como está a noite', sem te amo.
Meus dias eram sempre longos.
Eu podia ter acordado com o cheiro de puteiro, eu gosto assim, a ressaca, o cheiro de cigarro na mão, o arrependimento do dia anterior.
No lugar que me fiz nunca existiu presente, só passado, com um sorriso de alegria forçado.
Mas eu só acordei com a saudade dançando nos quatro cantos do quarto, deixando em destaque tudo que eu vejo todos os dias.
- É só um surto. Repeti
O dia passou, re-passou, eu amei e re-amei, no mesmo longo dia...
Eu já havia me acostumado a ver tudo em preto em branco, mas tinha dias que eu queria seus olhos, eu queria ver tudo colorido novamente.
- Que cheiro de pu... Saudade.
Devia ter acordado sentindo o seu cheiro, mas eu só acordei tentando entender quanto tempo dura uma vida.
Eu nem queria sentir o cheiro de puteiro, eu nem queria ser fria assim, só queria tirar uma foto de uma rosa qualquer e te desejar bom dia, mas eu precisava de um motivo que me fizesse ruim o bastante, que me fizesse ser pior do que eu nunca fui, só assim minha mente entenderia que você não voltaria.
Fumei.
Deitei.
Torcia pra acordar sem querer seu cheiro.
Sem saudade.
Só puteiro.