domingo, 4 de maio de 2025

Pausa pro funeral

 Pedro? 

- Oi. 

Foi a primeira vez que eu respondi. Sim, a primeira vez que meu coração respondeu. 

- você quer falar, capitão? 

- quero, maru... 

A palavra morreu, no meio da minha garganta. Sim, da minha. Porque agora não há mais marujo, ou capitão. Não há mais porque fingirmos, não é? 

O rum secou, o barco já atracou e minhas últimas duas moedas foram pro barqueiro mais importante que já paguei.

Quando as ondas batiam e eu me achava covarde, o barril era aberto e você me dizia que a terra logo seria vista. Eu acreditava e bebia. 

Houve um dia que o céu estava nublado e eu disse que nada seria igual, você me disse que tudo bem, o amanhã iria chegar.

Meu melhor marujo.

Então eu fui levando e refazendo nossos maiores medos, eu segurei você como se alguém pudesse segurar uma âncora no meio de uma tempestade. E deu certo. 

Não, não deu errado. 

E então você disse que tudo era pesado, cansativo, e eu que sempre fui peso pena na vida de qualquer um te disse que valia continuar. 

Você me deixou uma última escrita, num papel, dentro de uma garrafa que talvez esteja jogada agora no meio do oceano. 

E, minha bússola, está tudo bem. 

Nós sempre dissemos que não há um capitão sem um marujo. E não haveria um Pedro sem minha maior dor. 

Não há escritor, sem dor. Não há beleza, sem amor. 


Neste texto, póstumo como todos os outros, há um ponto final e este é do capitão Pedro. 


Nao há navio sem um marujo, e aqui, decido nosso fim. 


Mas nasceu o Pedro. 


E como nunca feito antes numa escrita, pro fim de uma era de setes, primeiros, dores, escritas, e dias, o Capitão se despede. 


Tripulação.... Preparar para o voo.

Capitão, preparar para ancorar. 


Obrigado todos que estiveram aqui e conheceram o Capitão. 


0405 o fim deste navio 


Bandeira a meio mastre

 

Ancorar barco 


Fim.


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Pessoa

 Eu conheci uma pessoa 

Mas as vezes me questiono se era mesmo, uma pessoa. 

O ser humano é falho, machuca, diz o que não sabe... 

Mas eu conheci uma pessoa, não um ser humano, uma pessoa. 

Com seus dedos a mostra, com meus erros escancarados 

Meu sangue corria, ela gritava. Eu silenciava. 

O sangue dela pulsava, eu silenciava. Ela buscava.

Ela jogou tantas pedras no meu teto de vidro que hoje não há redoma pra me proteger 

É que eu conheci uma pessoa 

E as vezes me questiono se não deveria a batizar de: Pessoa

É que tudo que saiu de nós virou livro, poesia, simetria 

Foi alto genuíno, com todos os defeitos que um tropeço pode causar 

"Não há nada mais motivador do que não ter saída"

E nós não tínhamos, mas aí... Aí eu conheci uma Pessoa. 

E hoje, tenho medo de perder as lacunas dessas frases desconexas, e me deixar levar pelos parágrafos mal ditos 

É que eu conheci uma Pessoa, e ela me trouxe um acalanto 

Aquele que mata e morre por você, que te entende, te julga e ainda vê o brilho no olho


- Pedro, com quem está falando?

- Com meu coração... Veja, olhe a onda: ela vai, volta. É meu coração. 

- Você quer outro rum? 

- Nao, hoje vou ver o mar ao longe e lembrar do que sou. Pessoa 

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Otimista demais.

 - Pedro, me falaram que nunca vai melhorar. 

Respirei, tão profundo, que achei ter voltado do mar e este era meu último suspiro. 

- O que, não vai melhorar? 

- Tudo. No fim, seremos só isso, esse monte de coisa não dita, frase mal escrita, e tentativas de acerto. 

O marujo me serviu outro copo de rum. Ao levantar o copo a lua refletiu no vidro, e só vi horizonte e ondas. 

- E um bom marujo. Respondi. 

- O que adianta, se no fim, sucumbi?!

- Oras, o seu filho contará que foi um marujo que servia rum ao capitão. E seu bisneto contará que você era o maior entendedor de rum do capitão e assim acontecerá até que a história conte que você quem criou o rum. E não haverá alma viva na terra pra dizer que não. 

- Viverei então para não sucumbir, para que meus descendentes contem uma mentira? 

- Não, viverá para ser o melhor marujo que esse navio já teve. 

- Você é otimista demais, Pedro. 

Ele se levantou e foi embora, sem acreditar em uma palavra que eu disse. E eu fiquei, olhando o sacolejo sem pensar em nada. 

Uma rasga mortalha cantou. Como?! Sem terra a vista. 

Baixei a cabeça e respirei. Morrerei eu, e meu marujo, aquele que nunca dei nome para que não se faça corpo presente. 

Nunca fui otimista, penso eu. No silêncio. Mas o que seria de meu marujo se soubesse disso? 

Um dia, você, que do futuro lê, marque em suas anotações:

Fui bom capitão, pois tive bom marujo, a qual o futuro exaltará. 

- Isso nunca vai passar.

Eu disse, enquanto as ondas sacudiam meus ossos.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Poema do Ney.

 É ódio.

As vezes eu acho que tudo que me consome é ódio. 

É que eu não sei lidar, e Pedro solta a rédia. 

Ele não sabe me segurar. 

Eu bebo, ele soluça. 

Eu choro, ele reflete. 

Não há nada nessa vida que seja ameno. 

Mas como pode, o ódio ser maior do que... 

Eu nem sei o que ia dizer. 

A gente vive, 

Ou sobrevive...

Pedro, pegue a rédia!

Ele nunca sabe o que fazer, porque agora o ódio me consome. 

O pássaro voou, 

A maré alastrou,

E amanhã... 

Ah, o amanhã... 

Eu vou sorrir, sabendo que o ódio que me consome é mera coincidência do caos que se instalou 

A verdade, como já disse, 

É quimera

E vai me devorar por inteiro 

Porque meu ódio é um Pincher raivoso e a vida ..

A vida é um Pitbull deitando dormindo, roendo o osso.

Enquanto eu morro de ódio, a vida me tem sonolenta. 

E o amanhã me tem, como cupim em madeira. 

Eu sou só ódio. 

Mas a vida,

Ela é só...

Pedro?


Silêncio. 


De novo

Pedro gosta do silêncio, eu também. 

Mas o ódio fala alto, grita, arranha 

E eu chamo por Pedro.

Se Pedro é covarde, eu sou o que?!

Todos do convés sabem que não há Terra a vista.

Eu sou só um capitão, mimado, que grita por Pedro no mais insano ódio 

E Pedro...

Faz silêncio. 

sábado, 6 de novembro de 2021

Nunca entendeu

 As vezes eu acho que fiz tudo

E sinto falta 

Sim, sinto falta de tudo 

Quase como, se tudo, fosse nada 

Mas ha tantos que dizem ser tudo, no meio do nada 

E eu não sei dizer o que é tudo, isso, o nada 

Mas te ouvi dizer sobre o nada

O vazio 

E eu pensava saber do tudo.

Mas aí, me atingiu o nada. 

É o que sou, no final. 

Começo

O que é? 

Ela se priva, toda vez 

Todo, é como o nada. 

Porque tudo que é cheio, chega a ser vazio 

E Pedro se desespera, porque vários de seus textos também foram cheios

Mas recebeu o vazio. 

Mas o mar é sempre revolto 

Tudo ao eterno é vazio 

Se não fosse o canto 

O assovio 

O rum 

Tudo é cheio de nada, 

Não é?!

Mas ela é a imensidão, a pequena marola,  que engole a todos. 

E não é isso a vida?!

O grande vazio, que é cheio. 

Do que?!

Não sei. 

- Pedro?!

- Sim, marujo?!


Traga outro gole, Judas nunca entendeu o contexto.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Eu te quis pra sempre

 Te queria pra sempre. 

Eu que nunca quis, ou entendi o pra sempre me privei da despedida.

Moedas pro barqueiro, o cais sem âncora, um gole pro marujo...

Já fiz tantas cartas que não pude mensurar quantas. 

Mas eu te quis pra sempre

E agora tudo faz parte do todo, dessa despedida que sacode meus nervos e diz que o amanhã é incerto demais pra tomar outra dose. 

Será que disse demais? 

Ou de menos? 

Tudo é muito pequeno, não é? 

Você me disse isso

Sim, você me disse. 

O mundo é pequeno, somos inúteis, eu sou só uma parcela. 

Eu nunca entendi. 

Mas agora, ah.... Agora o mundo é pequeno

Ele não comporta você. 

É, eu sei, o eterno não existe, as coisas são passageiras e ... O que mais?

Você me disse. 

Você sempre diz. 

Sempre certa, sempre lúcida. 

Mas o mundo é ruim demais

Ne me quitte pas

Você fala francês

Mas o mundo é burro demais, pra entender você.

Sabe? Eu quis você pra sempre. 

Mas, o mundo é pequeno demais pra você 

Você me fez voar. 

E como nunca dito num texto antes

Eu te amo. 

É que as palavras não encaixam 

Eu sou marinheiro, cachaça e sentimento não são de praxe, comuns. 

Mas... O mundo é pequeno demais.

Ubuntu

Serei sempre por você. 

Se isso é uma despedidas, 

Saiba que

Eu quis você pra sempre, 

Mas você é grande demais pra esse mundo.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Nem Pedro salva.

 

Ponta de lança
Aguda e doida
Fiz de mim o que quis
E fizeram de mim o que quiseram.
Estraçalha de vidro
Caco
Pedaço
Miúdo
Corte raso que não sangra, mas incomoda
Fiz de mim o que pensei ser
Pensaram que eu não era
E acreditei
Cai no meu próprio conto,
Pedro até se afastou.

A lágrima, o sangue, o suor

Faca riscada no chão

Agi como bom marujo

Ponta de lança estraçalhada, em miúdos meu peito alerta
Como pontuar um texto
Se nem Pedro
Que fala torto
Desceu o último gole?

No fundo, do peito, do barco, do mar
A gente sempre sabe em quem confiar.

Até Pedro se negou a acreditar.