Pedro?
- Oi.
Foi a primeira vez que eu respondi. Sim, a primeira vez que meu coração respondeu.
- você quer falar, capitão?
- quero, maru...
A palavra morreu, no meio da minha garganta. Sim, da minha. Porque agora não há mais marujo, ou capitão. Não há mais porque fingirmos, não é?
O rum secou, o barco já atracou e minhas últimas duas moedas foram pro barqueiro mais importante que já paguei.
Quando as ondas batiam e eu me achava covarde, o barril era aberto e você me dizia que a terra logo seria vista. Eu acreditava e bebia.
Houve um dia que o céu estava nublado e eu disse que nada seria igual, você me disse que tudo bem, o amanhã iria chegar.
Meu melhor marujo.
Então eu fui levando e refazendo nossos maiores medos, eu segurei você como se alguém pudesse segurar uma âncora no meio de uma tempestade. E deu certo.
Não, não deu errado.
E então você disse que tudo era pesado, cansativo, e eu que sempre fui peso pena na vida de qualquer um te disse que valia continuar.
Você me deixou uma última escrita, num papel, dentro de uma garrafa que talvez esteja jogada agora no meio do oceano.
E, minha bússola, está tudo bem.
Nós sempre dissemos que não há um capitão sem um marujo. E não haveria um Pedro sem minha maior dor.
Não há escritor, sem dor. Não há beleza, sem amor.
Neste texto, póstumo como todos os outros, há um ponto final e este é do capitão Pedro.
Nao há navio sem um marujo, e aqui, decido nosso fim.
Mas nasceu o Pedro.
E como nunca feito antes numa escrita, pro fim de uma era de setes, primeiros, dores, escritas, e dias, o Capitão se despede.
Tripulação.... Preparar para o voo.
Capitão, preparar para ancorar.
Obrigado todos que estiveram aqui e conheceram o Capitão.
0405 o fim deste navio
Bandeira a meio mastre
Ancorar barco
Fim.
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