quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Otimista demais.

 - Pedro, me falaram que nunca vai melhorar. 

Respirei, tão profundo, que achei ter voltado do mar e este era meu último suspiro. 

- O que, não vai melhorar? 

- Tudo. No fim, seremos só isso, esse monte de coisa não dita, frase mal escrita, e tentativas de acerto. 

O marujo me serviu outro copo de rum. Ao levantar o copo a lua refletiu no vidro, e só vi horizonte e ondas. 

- E um bom marujo. Respondi. 

- O que adianta, se no fim, sucumbi?!

- Oras, o seu filho contará que foi um marujo que servia rum ao capitão. E seu bisneto contará que você era o maior entendedor de rum do capitão e assim acontecerá até que a história conte que você quem criou o rum. E não haverá alma viva na terra pra dizer que não. 

- Viverei então para não sucumbir, para que meus descendentes contem uma mentira? 

- Não, viverá para ser o melhor marujo que esse navio já teve. 

- Você é otimista demais, Pedro. 

Ele se levantou e foi embora, sem acreditar em uma palavra que eu disse. E eu fiquei, olhando o sacolejo sem pensar em nada. 

Uma rasga mortalha cantou. Como?! Sem terra a vista. 

Baixei a cabeça e respirei. Morrerei eu, e meu marujo, aquele que nunca dei nome para que não se faça corpo presente. 

Nunca fui otimista, penso eu. No silêncio. Mas o que seria de meu marujo se soubesse disso? 

Um dia, você, que do futuro lê, marque em suas anotações:

Fui bom capitão, pois tive bom marujo, a qual o futuro exaltará. 

- Isso nunca vai passar.

Eu disse, enquanto as ondas sacudiam meus ossos.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Poema do Ney.

 É ódio.

As vezes eu acho que tudo que me consome é ódio. 

É que eu não sei lidar, e Pedro solta a rédia. 

Ele não sabe me segurar. 

Eu bebo, ele soluça. 

Eu choro, ele reflete. 

Não há nada nessa vida que seja ameno. 

Mas como pode, o ódio ser maior do que... 

Eu nem sei o que ia dizer. 

A gente vive, 

Ou sobrevive...

Pedro, pegue a rédia!

Ele nunca sabe o que fazer, porque agora o ódio me consome. 

O pássaro voou, 

A maré alastrou,

E amanhã... 

Ah, o amanhã... 

Eu vou sorrir, sabendo que o ódio que me consome é mera coincidência do caos que se instalou 

A verdade, como já disse, 

É quimera

E vai me devorar por inteiro 

Porque meu ódio é um Pincher raivoso e a vida ..

A vida é um Pitbull deitando dormindo, roendo o osso.

Enquanto eu morro de ódio, a vida me tem sonolenta. 

E o amanhã me tem, como cupim em madeira. 

Eu sou só ódio. 

Mas a vida,

Ela é só...

Pedro?


Silêncio. 


De novo

Pedro gosta do silêncio, eu também. 

Mas o ódio fala alto, grita, arranha 

E eu chamo por Pedro.

Se Pedro é covarde, eu sou o que?!

Todos do convés sabem que não há Terra a vista.

Eu sou só um capitão, mimado, que grita por Pedro no mais insano ódio 

E Pedro...

Faz silêncio.