- Pedro, me falaram que nunca vai melhorar.
Respirei, tão profundo, que achei ter voltado do mar e este era meu último suspiro.
- O que, não vai melhorar?
- Tudo. No fim, seremos só isso, esse monte de coisa não dita, frase mal escrita, e tentativas de acerto.
O marujo me serviu outro copo de rum. Ao levantar o copo a lua refletiu no vidro, e só vi horizonte e ondas.
- E um bom marujo. Respondi.
- O que adianta, se no fim, sucumbi?!
- Oras, o seu filho contará que foi um marujo que servia rum ao capitão. E seu bisneto contará que você era o maior entendedor de rum do capitão e assim acontecerá até que a história conte que você quem criou o rum. E não haverá alma viva na terra pra dizer que não.
- Viverei então para não sucumbir, para que meus descendentes contem uma mentira?
- Não, viverá para ser o melhor marujo que esse navio já teve.
- Você é otimista demais, Pedro.
Ele se levantou e foi embora, sem acreditar em uma palavra que eu disse. E eu fiquei, olhando o sacolejo sem pensar em nada.
Uma rasga mortalha cantou. Como?! Sem terra a vista.
Baixei a cabeça e respirei. Morrerei eu, e meu marujo, aquele que nunca dei nome para que não se faça corpo presente.
Nunca fui otimista, penso eu. No silêncio. Mas o que seria de meu marujo se soubesse disso?
Um dia, você, que do futuro lê, marque em suas anotações:
Fui bom capitão, pois tive bom marujo, a qual o futuro exaltará.
- Isso nunca vai passar.
Eu disse, enquanto as ondas sacudiam meus ossos.