Tudo começou com um déjà vu. Um
eterno déjà vu. Depois de muitas semanas
eu percebi que não era uma reação psicológica, eu realmente já havia vivenciado
aquela situação, na minha cabeça, eu mesma já tinha feito aquela situação, eu
sempre soube o ponto aonde chegaríamos, não era apenas uma sensação. Eram dias comuns, sempre são comuns, e eu não
era nada, eu não tinha nada, eu não queria ser nada, mas tinha um buraco nessa
linha de tempo, a poucos dias atrás eu tinha em mim todos os sonhos do mundo.
Espera, pensei, eram meses atrás, eu estava perdida.
Num passado eu sabia exatamente o
que iria acontecer, seu amor era o décimo terceiro salário que esperei o ano inteiro
e quando veio se foi antes que algo pudesse ser feito. Isto nunca tinha sido um déjà vu, disso eu
tinha certeza. Como eu podia ter sido
tão egoísta? Prometi cuidar das suas feridas, porém te dei apenas o lado
pessimista. Você, pessoa feita, nunca me deixou duvidar do que era. Já eu que
nada sou, te deixei a sensação de culpada.
Eu amava tudo em você. Tudo que
era pra mim, tudo que era meu, tudo que atingia a mim. Isso sim era novidade,
nem tive tempo de ter um dájà vu, era uma sensação nova a cada bom dia, desde
quando vinha por mensagem até quando vinha acompanhado de uma cara de sono e um
sorriso de canto de quem não queria levantar. Eu amava o que eu era, o que eu
tinha, o que eu sonhava. Eu amava até mesmo o fato de me sentir boba, por você.
Tinha em mim um sentimento que eu
nunca quis, que nunca acreditei, mas não reclamaria nem por um segundo de ter
aprendido a sentir. Ainda não reclamo. Eu havia feitos planos, que patético,
mas que delicia era acreditar. Brilhava meus olhos ver o que a gente era e o
tanto que tínhamos corrido, ainda brilham. Foi o conto de fadas mais lindo que já
ouvi e se eu fosse ter filhos eles escutariam também.
Mas eu já sabia aonde chegaríamos
antes mesmo da estrada ser trilhada, eu já sabia, não era déjà vu.
Eu não deveria ter errado tanto.
Não deveria ter sido tão egoísta. Eu vivo no inferno de Dante, um suspiro
eterno de cansaço, tenho uma bagagem tão pesada quanto de uma gestante, eu
nunca poderia ter te feito dividi-la comigo.
Hoje sinto o peso do fardo e não entendo como eu pude fazê-la sentir
comigo. Quão otária eu fui de ter te colocado nesse mundo de ponta cabeça que é
minha vida? Eu não sei. Pedir desculpa é tão inútil quanto te pedir pra
esquecer? Acho que sim. E quando a gente
acha que não pode piorar vêm os dias, o amadurecimento e a overdose de cafeína
(como costumo chamar), e no meio disso tudo eu entendi o quanto fui idiota.
Pensei ser a pessoa certa pra você e estava mais pra um corte de folha no dedo
que arde, mas a gente gosta. Eu era tudo que você não gostava, eu não tinha nada
em mim que valesse a pena e nunca fiz nada pra mudar, eu nem me dava ao esforço
de tentar mudar as coisas, eu era um nada fingindo ser tudo.
Praguejei por muito tempo, gritei
aos sete ventos o quanto te odiava, questionei dia após dia o que seria de mim,
do futuro, do sentimento. Não queria ter que admitir que te perdi, que não
voltaria, só pensava em mim e no bem que
havia me feito. Eu que sempre disse que estaria sorrindo se você estivesse
sorrindo, coloquei a culpa em tudo, em todos, menos em mim. Fui uma hipócrita,
de amor doentio.
Na minha vida nem tudo é ruim,
não sou assim, mas confesso que a melhor parte foi você. História curta perto
do que eu havia planejado, porém linda perto do que eu tinha a oferecer. Não
cresci, nem sou melhor, mas aprendi a te ver sem mim. Nada de drama, eu
realmente voltei a sorrir se estiver sorrindo. Eu não serei tão egoísta mais,
levo minha bagagem sozinha agora, a bagagem da vida, do amor, do tempo, me
mande as suas inclusive. Agora eu percebo que te ver construindo um castelo de
pedra e não de areia, é o amor mais puro que posso te dar.