domingo, 30 de março de 2014

Era um dia de primavera, aqueles dias gostosos: nem quente, nem frio.

Eu estava encostada numa pedra escutando o silêncio da água correndo, meus olhos entreabertos devido o sol que se punha com força no horizonte. Ela estava parada na minha frente, sorria de canto e tentava me olhar nos olhos, mas eu não deixava. Minhas mãos estavam por trás do meu corpo, as palmas viradas pra pedra gelada. Ela continuava me encarar. Num súbito momento de deslize eu a encarei... Nos olhos. Foi tão bom que eu pensei ter sido abduzida para outra dimensão. Antes que eu pudesse pensar nos meus atos minhas mãos já estavam encaixadas nas curvas da sua cintura e eu puxei o seu quadril contra os meus, seu corpo vacilou caindo sobre o meu. Agora estávamos nós duas, coladas uma a outra, eu na pedra e ela em mim. Ela continuava me olhando nos olhos, mas eu já não sabia se olhava pros olhos ou pra boca que agora estava semi-aberta, implorando que eu a beijasse de uma vez. Mas eu sempre gostei de jogos, com uma das mãos eu senti toda a lateral do seu corpo até que chegasse a sua nuca, apenas com as pontas dos dedos pressionei sua pele e fiz com que seu rosto ficasse a milímetros do meu, nenhum dos olhos permaneciam abertos mais. Meus lábios foram percorrendo os dela, vagarosamente, e quando vinham pra se encaixar com os meus, eu levava o queixo pra trás, eu sentia o seu corpo cada vez mais grudado ao meu, eu juro que não queria sair mais de lá. As mãos dela seguravam o meu rosto com força pra tentar impedir que meus lábios fugissem, foi quando senti o calor da língua passando em meu lábio inferior, eu não sei como foi, só sei que em questão de segundos minha palma da mão estava completamente agarrada a sua nuca, meu outro braço havia sido entrelaçado envolta da sua cintura e nossos lábios já haviam se encaixado completamente.


Agora eu não ouvia mais o barulho da água, só da sua respiração.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Cheiro de café fresco, que invade o olfato, logo pela manhã. Essa foi a sensação que eu tive, a sensação de estar tomando uma xícara de café quente. Lá no fundo tocava “Eduardo e Mônica” daqueles caras bem conhecidos, sabe? E aí ela disse:
- Hey, vamos ver o mar! Já pensou que louco? (Na verdade, foi céu que ela disse, mas por algum motivo “mar” ficou mais legal nessa frase.)
Eu fiquei pensando, me questionando, se eu deveria mesmo ver o céu se ela tinha uma galáxia imensa no olhar.  Mas isso é patético, convenhamos, então eu só disse:
- Vamos, vamos! Tu tinha falado daquela cachoeira lá não é?
Por algum motivo desconhecido, fez uma careta, um quase sorriso de confirmação. Aí eu não aguentei:
- Tuas bochechas são amor.

Ultimo gole de café, um ultimo trago e fumaça pro ar. Eu só me toquei quando a música acabou. 

quarta-feira, 26 de março de 2014

Pensamento de uma suicida.

Foi estranho encontrar uma pessoa que matei a alguns anos... É, eu te matei. Você nunca esteve nos meus planos, apesar de ser você que me deu a chance de ter planos. Eu nunca esperei nada de você, mas juro que me confundi quando te ouvi. Você sabe que não é forte e eu também sei, nenhum de nós é bom o bastante... E se nós nos internarmos juntos? Podia ser uma solução. Eu só sei que eu ouvi de você, depois de ter te matado, eu ouvi de você e se quer saber  foi uma grande bosta, porque eu provei pra mim que essa frase é nada mais do que meras palavras, são apenas letras formando uma palavra que todo mundo quer escutar, mas que no fundo não carregam sentimento nenhum. Talvez o psicólogo esteja lá me esperando, talvez o fim da semana seja o fim da vida ou minha vida seja apenas o fim da sanidade. Eu só sei que você veio, com essa cara de quem vai morrer amanhã, e todos vocês vieram como quem vai me abandonar amanhã  e o fizeram, e a culpa? Não, não é de vocês, sempre estiveram certos quando diziam que o erro era meu, porém eu nunca escutei, agora é a hora de  olhar pro passado e dizer: pra que futuro? São apenas pensamentos de um suicida. 

sábado, 22 de março de 2014

Conversa de bar.

Eu disse:
- Sei lá, eu já não sei, sabe?
-Sei.
A gente riu... De desespero.
- Eu só não sei, cara, é louco.
- To ligada.
- Acho que já vivi meu amor da vida, e ele acabou.
- Então, o que resta agora?
- Sei la, acho que acabou.
- “Cê” ta que nem eu.
- Perdida?
- É, cara.
- Meu, o que te da prazer? Sei lá, o que tu quer fazer da vida?
- Acho que não tenho prazer em mais nada.
- Hum... Nem eu. Meu “pra sempre” já foi, ta ligada? Mas isso fudeu minha mente, nega.  E agora? O que eu faço?
- Sei lá.
- É...
Silêncio.
- Vamo embora? (eu disse)
- Pra onde?
- Pra lá, cara.
- Vamo!
-Ta falando sério?
- Sério, quero sair daqui mesmo. É por ela?
- Não, nada a ver, só é um lugar legal, você ia gostar.
- Então vamo.
- Até o fim do ano?
-  Até o fim do ano.
Eu sabia que não era verdade, nem me faria acreditar na vida, mas a ideia de estar lá...

quinta-feira, 20 de março de 2014

Déjà vu.

Tudo começou com um déjà  vu.  Um eterno déjà vu.  Depois de muitas semanas eu percebi que não era uma reação psicológica, eu realmente já havia vivenciado aquela situação, na minha cabeça, eu mesma já tinha feito aquela situação, eu sempre soube o ponto aonde chegaríamos, não era apenas uma sensação.  Eram dias comuns, sempre são comuns, e eu não era nada, eu não tinha nada, eu não queria ser nada, mas tinha um buraco nessa linha de tempo, a poucos dias atrás eu tinha em mim todos os sonhos do mundo. Espera, pensei, eram meses atrás, eu estava perdida.
Num passado eu sabia exatamente o que iria acontecer, seu amor era o décimo terceiro salário que esperei o ano inteiro e quando veio se foi antes que algo pudesse ser feito.  Isto nunca tinha sido um déjà vu, disso eu tinha certeza.  Como eu podia ter sido tão egoísta? Prometi cuidar das suas feridas, porém te dei apenas o lado pessimista. Você, pessoa feita, nunca me deixou duvidar do que era. Já eu que nada sou, te deixei a sensação de culpada.
Eu amava tudo em você. Tudo que era pra mim, tudo que era meu, tudo que atingia a mim. Isso sim era novidade, nem tive tempo de ter um dájà vu, era uma sensação nova a cada bom dia, desde quando vinha por mensagem até quando vinha acompanhado de uma cara de sono e um sorriso de canto de quem não queria levantar. Eu amava o que eu era, o que eu tinha, o que eu sonhava. Eu amava até mesmo o fato de me sentir boba, por você.
Tinha em mim um sentimento que eu nunca quis, que nunca acreditei, mas não reclamaria nem por um segundo de ter aprendido a sentir. Ainda não reclamo. Eu havia feitos planos, que patético, mas que delicia era acreditar. Brilhava meus olhos ver o que a gente era e o tanto que tínhamos corrido, ainda brilham. Foi o conto de fadas mais lindo que já ouvi e se eu fosse ter filhos eles escutariam também.
Mas eu já sabia aonde chegaríamos antes mesmo da estrada ser trilhada, eu já sabia, não era déjà vu.
Eu não deveria ter errado tanto. Não deveria ter sido tão egoísta. Eu vivo no inferno de Dante, um suspiro eterno de cansaço, tenho uma bagagem tão pesada quanto de uma gestante, eu nunca poderia ter te feito dividi-la comigo.  Hoje sinto o peso do fardo e não entendo como eu pude fazê-la sentir comigo. Quão otária eu fui de ter te colocado nesse mundo de ponta cabeça que é minha vida? Eu não sei. Pedir desculpa é tão inútil quanto te pedir pra esquecer? Acho que sim.  E quando a gente acha que não pode piorar vêm os dias, o amadurecimento e a overdose de cafeína (como costumo chamar), e no meio disso tudo eu entendi o quanto fui idiota. Pensei ser a pessoa certa pra você e estava mais pra um corte de folha no dedo que arde, mas a gente gosta. Eu era tudo que você não gostava, eu não tinha nada em mim que valesse a pena e nunca fiz nada pra mudar, eu nem me dava ao esforço de tentar mudar as coisas, eu era um nada fingindo ser tudo.
Praguejei por muito tempo, gritei aos sete ventos o quanto te odiava, questionei dia após dia o que seria de mim, do futuro, do sentimento. Não queria ter que admitir que te perdi, que não voltaria,  só pensava em mim e no bem que havia me feito. Eu que sempre disse que estaria sorrindo se você estivesse sorrindo, coloquei a culpa em tudo, em todos, menos em mim. Fui uma hipócrita, de amor doentio.  

Na minha vida nem tudo é ruim, não sou assim, mas confesso que a melhor parte foi você. História curta perto do que eu havia planejado, porém linda perto do que eu tinha a oferecer. Não cresci, nem sou melhor, mas aprendi a te ver sem mim. Nada de drama, eu realmente voltei a sorrir se estiver sorrindo. Eu não serei tão egoísta mais, levo minha bagagem sozinha agora, a bagagem da vida, do amor, do tempo, me mande as suas inclusive. Agora eu percebo que te ver construindo um castelo de pedra e não de areia, é o amor mais puro que posso te dar.