quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Sétimo setembro.

No dia onze de setembro as duas torres caíram. Dava pra se ver de longe a queda. Sentiu-se de longe a dor do exato momento que o avião adentrou o concreto. Me lembro de estar vendo televisão e ser acometido pelo frio na espinha do "plantão da Globo".
Mal havia se passado um ano e muito se discutia acerca do assunto (talvez ainda hoje). Parcelas diziam atentado, parcelas diziam conspiração, parcelas não lembravam do assunto. Modéstia parte pertenço, ainda, as três parcelas que junta todos em um só.
De um ponto de vista externo, conclusão nenhuma muda o deslize do concreto as chamas a fumaça ou coisa que seja. De um ponto de vista interno, não é isso mesmo que somos? Amontoados de desabamentos que na queda tentam encontrar a solução da equação como se isso evitasse o, já previsto, encontro com o chão?!
Meu sofá aquele dia se fez gélido e eu não pude compreender, achava que era toda aquela  cena digna de um prêmio de efeitos especiais, porém por grande ironia eu não  conhecia ninguém e isso me pareceu o suficiente pra trocar de canal e esquecer a sensação.
Eis que agora me acomete um sentimento animalesco, tanto tempo depois (vivo atrasado), dando me um pensamento um tanto nebuloso. Como não havia de ser, a vida fez-se terrorista ou conspiração ou coisa qualquer que não ligo. Contudo não atingiu-me em cheio, embora tenho tentado. Penso eu se não é isso que a vida é, uma sequência de tentativas de te acertar em cheio pra ver-te caindo em pedras gases e poeira. Sem propósito algum. Ou seria eu a própria conspiração terrorista que não se importa indo de encontro com a vida que é tão dura quanto o chão. Nos dois casos, faço parte de todas as parcelas que juntamente forma um grande pensamento inóspito e obviamente, inútil. 
Como havia de ser, senti que a queda era propícia uma vez que estamos todos dentro do edifício imortalizados pelo nome-sobrenome que nos deram sem perguntar, ao menos, se queríamos entrar pela porta. A ascenção do meu estágio de contemplação do universo foi repentina visto que a velocidade deixava a sensação de que ou eu olhava rápido, ou perderia pra sempre a imagem ao tocar o chão. Como se assim, não fosse todos os dias.
O respirar quase asfixiado começou a roubar o oxigênio e como se sabe isso diminui a exatidão do pensamento, fui me tornando um ser-animal-quase-irracional. Eu devia ter feito mais vezes. Descobri mais sentidos em meu peito, dos quais não imaginei que existiam. Era uma queda brusca e a pressão atmosférica quase perfurava minha caixa craniana fazendo meu lóbulo central ser nada menos que massa cinzenta. Penso eu se não é mesmo isso o tempo todo, punhado de massa cinzenta que carregamos como medalha de honra por ser algo, que na realidade, não faz jus aos atos desengonçados de um ser com polegares opositores.
Dava pra se ver de longe a fumaça o concreto. A imersão do gigante no espaço temporal tornando-o em segundos um amontoado de nada. Mas penso eu se não é isso mesmo todo dia, queda livre. Salto certo do concreto para o chão como forma de escapar de um encontrando o outro, como se não fora no fim, a mesma coisa.  Encontrando-se com o chão. Tentativa de sair do nada pra encontrar aquilo que te transformará em nada.
Esse foi meu sétimo setembro.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Eu não tenho tido muito tempo de escrever, é que de alguma forma eu tirei a mão do volante e deixei que o carro se guiasse. Impulso ou besteira, não sei ao certo, mas de certo que colido de frente ou capoto no barranco.
O que for pra ser, que seja. Estou inerte e a dor que me doía fez uma pausa. Acho estranho essa anestesia repentina, esse formigamento no peito já perfurado de tantas facadas da querida amiga vida. Todavia não me permito olhar pro freio ou desviar da colisão, apenas observo o horizonte esperando o momento de limpar o sangue e reconstruir-me.
De pronto, me ergo como num solavanco socando os vidros em repúdio do que sou, mas o fervor que sobe em meus dedos me lembra que estou vivo e respiro.
Dizem pelos pedágios a fora que é preciso ser corajoso pra enfrentar a estrada na calada da noite. E eu que sempre tive medo do mundo, enfrentei o abismo por ter medo de mim.
O passo inicial foi um sopro de coragem, um devaneio súbito que me acometeu quando percebi que eu havia me tornado a quimera que me absorveu a vida toda. É possível se tornar a pior parte de si mesmo?
Guio agora esse carro em destino a rumo do nada esperando a tao esperada colisão pra ver se nos estilhaços do chão encontro a parte que se desprendeu de mim e anda vagando por ai.
Consciente do que fiz, não me arrependo, essa ebulição que acontece em mim, fazendo meu pensamento um liquido fluidico, está fervendo a cada km rodado. Quanto mais me afasto do ponto de partida, sinto a conexão falhar (entre mim e o que era pra ser/ou fui). Vou escurecendo a visão com a luz forte do farol e deleitando meu corpo peso pena em existencialismo.
Ou colido, ou capoto no barranco.
A chuva de estilhaços vai fazer brilhar o céu no mundo todo, e então, não terei mais medo de mim.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Todo dia o porteiro tranca a porta as dez, e me dá boa noite.
Todo dia eu estou fumando um cigarro e olhando a fumaça. Gosto de ver a fumaça.
Mas hoje, eu conversava com Chico.
E recitava algum poema sem nexo.
Todo dia devia ser assim.
"Meu sangue errou a veia e se perdeu"
Todo dia eu tranco a porta pra dormir, e fumo só meio maço. Ontem ouvi cazuza e dormi de porta aberta.
Perdi o controle da minha vida. Eu cheio das manias, pisei na linha e esqueci de tocar em um orelhão.
Por iniquidade das linhas, turvei e me curvei.
Lembro-me de um dia ter dito seu José, do bicho, que cachaça e amendoim curavam tudo. Mas hoje tomei cerveja pra ver doer.
Não que eu gostasse, claro. Mas nunca fui da cachaça, ou do acerto.
Que sei eu disso tudo, é que a vizinha riu de mim quando gritei "puta merda"...
Foi um grito sincero, confesso.
O porteiro fechou a porta as 22h, faziam vinte e quatro horas, e eu havia falhado.
Mas agora falhei, ao escrever.
Mas ora, o que mais faria eu?
Apenas escrever, e escrever.
Dentro da sobra que há no meu peito encharcado, a solidão virou um comichão, feito cupins a devorar meus papéis. Meros sinais, marcados em folhas ao som de Tim Maia ( ou qualquer outro som drastico).
É tudo luz baixa, daqui de onde estou, e o  vulto da lerdeza disso tudo ficou no meu olhar, como marca do fracasso.
Mas o porteiro fechou a porta as 22h como todo dia, não ha nada de novo, amanhã será igual.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Nada

Fiz uma lista esta noite, de coisas que eu deveria fazer, e quais eu não deveria fazer. Não me atrevo dizer que era pequena, ou fácil de ser cumprida. Mas foi uma bela lista, numerada e em ordem alfabética.
Correram as horas, o dia não terminou, porém fiz o que não devia e o que devia ficou a esmo, como meu corpo tem estado.
Me senti um grande vulto, e no meio de uma imensidão descobri que a maior concentração de nada está aqui.
Minha sacada é alta e eu não tive medo. Nem coragem. Nem vontade. Nem nada.
O que prometi pra minha progenitora que nunca mais o faria, o fiz e olhem: que linda merda eu fiz. Devia ser estampado em outdoor esta linda cagada que agora está  estampada apenas em meus dedos.
Cai tão rápido que nem vi o tropeço. De toda forma, eu sabia que havia tido um.
Fui analisando sistematicamente cada pedaço anaquilado de mim e juntando parte por parte pra que o vácuo fizessse ao menos sentido.
E então tive medo.
Parti pra tao longe que não sei mais o caminho de volta e mais uma vez me nego a pedir que apontem a direção, talvez porque eu so tenho cansado de prosseguir, seguir, emergir, sucumbir e sorrir.
No lugar que me encontro sou rei, mas não há utilidade nenhuma, uma vez que nao ha ninguém a quem comandar. Nem mesmo a cara no espelho.
Tornei-me um palco, protagonista de um belo show, que fecha as cortinas todos os dias antes que aconteçam os aplausos. Porque a plateia está vazia.
Eu tive medo.
De mim, de você, e até do vazio que vem deixando no meu mundo já inabitado.
Quando falo, o grunhido parece algo que ja se foi e eu odeio pena. Não espero pena. Não quero pena. Ou seja la o diabo que for.  Minhas preocupações são maiores, vão a Marte e voltam a mim, deixando a lembrança que minha alma não é daqui, e eu nao me importo com isso.
Se pisei nesse dia foi pra marcar com pegadas falsas a história e rir do meu fracasso.
E eu tive medo de mim.
Mas está tudo vazio, e me pergunto se alguém tem coragem o suficiente pra se criar no nada, procriar no vácuo e expandir minha sobra de falhas.
Talvez sim, talvez não
Tive medo do mundo, e de nós 
A falta do que me tem, inebria meu cérebro e já não sei se tenho medo.
Mas tenho, alguma coisa, creio eu. Eu que não creio em mim. Mas tenho.
E o medo rega tudo isso,
Ei... olha só essa montanha de nadas que eu fiz, da pra fazer muita coisa por aqui, inclusive nada.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Sinto muito

Quando me dei conta, passava das três.
Não sei exatamente quando eu perdi a noção do tempo, talvez tenha sido a alguns anos. Mas de fato a hora havia passado e eu continuará sem saber olhar os ponteiros.
Eu, ou aquilo que acredito que sou, deitei e nunca mais se levantou. Não troco meu travesseiro, nem minha coberta, estão todos se desfazendo, mas não me atrevo a deixa-los. Talvez esse seja o ponto, talvez eu nao saiba soltar as coisas tais que me dão uma boa noite de sono.
No fundo, sou um campo fértil pronto para tantos jardins... Eu sei. Mas o problema é a cerca. E se passas, o problema é o cão. E se amassansas, o problema é o caminho. E se passas...
Já passam das  três, ainda que eu não saiba olhar relógios e seus ponteiros.
Meu coração tem sido caneta tinteiro espalhando tinta por onde passa, deixando irreconhecível qualquer traço. Minhas mãos trêmulas ja não fazem grandes feitos, meus textos não expressam e essa dúvida sufoca o peito.
Entre minha cama e o mundo abriu-se um portal e, eu que sempre fui alheio ao mundo, sinto-me entrando nessa fenda paradoxal pra ver se encontro sua dopamina em qualquer esquina.
Me sinto tolo por sacudir um cachorro já morto, mas me sinto obrigado a dizer pra que não caia sob mim a culpa,  do ser ou do estar.
Já passa das três, não faz sentido que eu esteja assinando esse termo de compromisso comigo mesmo. Como sou tolo, e burro.
Minha cama me chama, eu sinto muito, me perdoe por faze-lo, ou não conseguir florescer. Eu realmente, sinto muito.

domingo, 14 de agosto de 2016

E se

Eu não sei quantas eu bebi, mas eu nunca sei, o que sei é que os caras que juntam alumínio estão muito felizes essa semana.
Fechei a cortina em uma tentaviva frustrada de não ver o raiar do dia. Cobri a cabeça tentando fazer esse cômodo ser inundado pela noite. Tudo pra tentar fechar os olhos e apenas sucumbir ao sono.
Falhei, em tudo, até mesmo em falhar. Meu peito não enrrigeceu com a ideia de que ficaria, minha respiração falhou foi quando pensei na hipótese de que não voltaria.
Meu maço não tem rendido mais que uma noite, meus dedos dançam e brincam com os filtros como um pedido de socorro. Nem mesmo quando me calo, sinto-me satisfeito, escutar o silêncio tem sido mais pertubador por não soar com sua voz as sete da manhã.
Se isso fosse uma carta, não teria destinatário, ou assinatura final. Creio que conhece minha caligrafia e os versos manjados. O celo em seus lábios ja dizem o remetente.
Mas estou bêbado outra vez, e raras as vezes que me calo. Mas e se eu dissesse que acabei me afogando mais do que esperava e foi bom naufragar, o que diria? Quando a ressaca acabasse e eu não pudesse abrir outra lata, o pedido pra que permaneça ainda estaria vivo, e o que eu faria?
Decidi emudecer, um completo peso morto, torto, eu podia ser (não mais) que um tropeço na sua semana e te fazer perder algumas boas horas em um dia qualquer te fazendo acabar com meio maço num fim de tarde.
Eu sei pedir outra cerveja ao garçom com maestria, mas por descuido do destino, não sei pedir pra que fique pra outro café. Mas gostaria.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Não faça mais-valia do meu peito.

Foi por um par de olhos assim que me debati. Perdidos na linha do querer, entre ter tudo em meio ao caos e perder nada perante a calma.
Eis que nunca fui bom trabalhador, ou menos ainda escritor. Sempre fui da taberna, e o garçom o sabe bem.
Meu peito foi regado a doses repetidas no meio da noite, enquanto a penumbra adentrava o quarto e eu fazia a luz neon de lua.
Suas pernas deviam caminhar por aqui, entrelaçando-me de forma sutil, emaranhado em mim, enrroscando até não mais sentir frio. Me deleitaria e sorriria ao sentir o sufocar da víbora.
Mas por maldade, veja só, fiz do travesseiro fortaleza e queidei-me mudo ao som de Tom Jobim.
Orquestrou com maestria a quinta sinfonia em minhas cordas vocais. Tamborilou o mais triste samba - fundo - de - quintal no meu coração.
Mas não me importa, quiçá, se existia a probabilidade que soubesse. Do meu copo cheio e o seu vazio, eu ja sei bem.
Fiz me pórtico poeta, em rumo a prumo do seu sumo. Poeta parnasiano. Que tal?
O garçom conhece bem. A mesa e o pedido. Da próxima, sente e pede um copo, que do meu coração nada levas, nada vale, do meu copo muito mais valia.