sábado, 30 de julho de 2016

Créditos finais

Gostei de como duvidou de mim. Encheu o peito pra dizer que eu estava errado. Fez malha fina nos meus argumentos.
Mas eu estava certo.
Paixão sempre foi mais forte que o amor, ou tantos não teria eu.
A vontade que te da, ao ouvir a mais perfeita Sinfonia de Sinatra, de dançar. É a paixão.
Descompasar o peito, com o compasso do seu passo.
Mas adoro que me provem que eu estou errado.
Que aquele filme, péssimo, de domingo era na realidade a relíquia pelos créditos finais. Afinal, somos nós perdidos em closes capturados pela sonografia ruim do longa e perfeitos na sonoridade do... e x p i r a r.
Não há como dizer que tudo isso é infindo, no primeiro raiar do dia eu ja terei ido e nosso silêncio repentino vai ser mais lindo do que aqueles Bastardos conseguiram fazer.
Curtas tem o poder de te deixar com gosto de quero mais. Sinatra numa película verde contrastante. É um longa simetrico feito por meu desprazer de ser contrariado pelo seu gosto familiar.
Na fala vacilou, contra meus argumentos não há como se defender, eu adoro estar errado.
Dizendo estar certo.
Sou clichê como a tristeza de Bukowski e te deixo sem sentido como Fincher. Volta amanhã pra me xingar, por eu ser tão Woody e sonoro como Elvis (but, don't run).
Me prova que estou errado, te dou minha certeza em sépia, luz baixa e enquadramento torto, que consigo ser o longa mais curto que já viu.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Não traia esse poeta.

Me coloquei a sonhar, ou a ver a realidade, quem saberá...
A quem direi o quanto gosto de ver essa realidade doída, sem parecer tão louco? Não me traga resiliência, não... Me traga esse coração todo perfurado à jorrar palavras banhadas desse sangue vermelho pulsante. Gosto disso. Como um caminhante gosta do alvorecer de inverno ainda que lhe doam os ossos.
Quero que me traga sua escrita, póstuma, cruel, real. Essa escrita carnal, traga-me por inteira, cada sílaba viceral.
Não traia esse poeta, quero tuas palavras a viajar na minha lingua e sua letra em minha derme como forma de dizer-me que comeria tudo que ha em mim, se assim fosse possível com conhecimento.
Não! Não traia esse poeta. Da-me tua escrita, mas não me tome os textos, esses que escrevo ao sentir que suas linhas me envolvem. Não traia esse poeta. De-me por inteiro, ao longos dos dias, mas não todos os dias.
Visto sempre essa capa dura, como enciclopédia a deslanchar palavras enfindas que Aurélio nenhum te descreveria.
Como se fosse eu mansão, ou senzala, não me importa, pisa com esses pés santos que escrevem caminhos com digitais singulares. Brinca como criança, me risca, por inteiro, com garranchos ou sussurros ou cochinhos, mas risca.
Faça o que bem entender que não me importo em ser, também.
Mas não traia esse poeta, o coração que pulsa em linhas tortas de papéis jogados, buscando essa dor de ser quebrado, de sofrer, de te olhar indo e deixando o rastro de frases-de-efeito feito com meu sangue-tinteiro. Não traia esse coração que so faz poesia pra morrer na sua boca e sentir dor ao ve-la ensinando ao mundo o nosso amor.
Faça o que bem entender, que faço entender-me bem. Mas não traia meu eu poeta, calando-se num dia de domingo, na nossa casa. Traia-me apenas se for pra dizer sim.

sábado, 16 de julho de 2016

Eu não sou daqui, aqui nada me pertence. Estou de passagem, sem direito a retorno, uma viagem só de ida.
Como posso eu, então, levar na bagagem coisas banais?! É longo o caminho, desfiladeiros sem fins e ademais sou todo pesado por conta.
Levo comigo um coração que não cansa de pulsar e estremecer, sangrar e jorrar sem se arrepender. Estou cheio de tantos sonhos e desejos infindos.
Não me canso de carregar tantos pesos e sobrecargos de coisas que não são materiais, vou largando pelo caminho as roupas e malas e livros. Me permito viver de alma nua e leve e deixo as palavras brincarem na minha cabeça e saltarem da boca até que delas me esqueça, ficam pelo caminho como sementes nos peitos que planto.
Me falta o ar quando tento dizer tantas coisas, minh'alma pula feito criança e não se aguenta, quer escapar por entre minha derme porque essa órbita é pequena demais pra portar a imensidão do que penso.
Mas penso calado.
Em silêncio, de olhos fixos, corpo estático, como se nada em mim estivesse vivo. Me permito parecer morto pra que o universo sussure no pé do meu ouvido como é realmente estar vivo, pra que o soar do vento na minha janela me aponte a direção.
Me permito ouvir.
Pra que o pulsar na minha orelha dê a sensação que meu coração vai sair a qualquer instante, e o fervor das minhas mãos me mostrem a perfeição termostatica em que meu corpo trabalha.
Nesse silêncio que me permito, as palavras se amansão e eu não profiro uma palavra se quer, porque mais tem elas a dizer a mim que eu a elas.
Não sou daqui, sou aprendiz, a cada verso que me declama o universo eu anoto mentalmente. Os que olham de fora e não entendem o silêncio, certamente nunca pararam pra escutar o que diz meu pensamento.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Maria

- To cansado Maria
- Meu nome não é Maria!
Eu tinha essa mania de inventar nomes.
- Mas seu nome me irrita...
- E o que é que não te irrita?!
- Coisas milimetricamente separadas.
O silêncio se fez presente, afinal que resposta seria mais vaga e sem sentido...
- Olha Maria, eu to cansado de ser pedra lima que amola a faca que me corta
- Pare de se fazer de vítima, vai...
- Oras, quem é você? Nem sabe o enrredo do que digo!
Como uma louca ela se levantou num súbito, jogou a garrafa contra o muro fazendo uma chuva de estilhaços.
- QUE PORRA É ESSA MARIA?
- MULHER! É só o que você sabe doer. Não me venha com seus papos de "cachorro-passa-fome".
Gesticulava como uma verdadeira maluca, tirando sarro da minha cara (eu adorava).
- MAS VEJA BEM...
- Não começa!
- Eu to cansado caralho! Lá tenho culpa de ser essa física mutável que elas não entendem?!
- Nem você se entende, para de gritar amor fedendo puteiro.
- Grito amor SIM!
A fumaça subiu, aquele trago forte de quem enche o pulmão pra não dizer nada.
Ai Maria....
Maria se calou.
O mundo conscentio, os cachorros da rua também... Até eu mesmo.
- Ok, não grito amor.
- Você é a porra de um porre, daqueles de vinho, que da uma dor de cabeça dos infernos.
- Não é pra tanto...
-  É sim, um bêbado de vodka barata que se diz tomar vinho nobre.
- Ora Maria! As vezes tomo vinho nobre. E as vezes me apaixono. Isso é tão inerente quanto...
- Não adianta falar difícil, nem me chamar de Maria. Você sabe que isso é só falta.
- Falta de que caralho?
Levantei da calçada como quem levanta atrasado numa segunda-feira.
- Falta de sessão da tarde, domingo no sofá, cafuné no ônibus... Não tem beleza nisso.
- Falta é faca de açougueiro na mão de vegetariano, Maria.
- Não serve pra nada?!
- Até serve, mas não é usada pra coisa certa...
- Já chega de tanta asneira, você só fala merda.
Me estendeu a mão ao me entregar uma garrafa, entendi o recado e apenas bebi.
- Tudo bem Maria.
- Mas que merda!
- Maria é um nome milimetricamente bonito.
- Me poupe.
- Ok, vou beber.
Mais um gole.
- E amar.
Outro gole.
- E te chamar de Maria.
Outra garrafa foi se ao muro, chuva linda de cacos,
caos.
- Tenho essa mania de teimosia, gosto de ser faca afiada que me corta o peito ao ser mal usada.
- Mas você não tava cansado porra?
- Mudei de ideia, essa conversa me deu fome de falta.
- Você é louco.
O mundo conscentio
Maria se deitou ao chão de brita.
Eu sorri.
- Pode ser....

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Cíclico

Me disse que as coisas não precisavam ser ciclicas. As coisas mutam.
Pixou nos muros da cidade frases de efeito e estampou o rosto em cada outdoor.
Se fez de cadeia quimica linda a me fazer querer aprender.
Então pintou os muros de branco, como Marisa. Se fez Monte, arduo de superar a subida.
Esqueceu-se de avisar que o universo só não colide pela órbita, essa que não tenho controle.
Dissimulou como tudo que é real, palpavel, circunferencia.
Perdoa, é sim, ciclico.
Se fez perfeita ligação, carbonada.
Se ligou a mim
e a mais quatro.
Não sou bobo, não morro de fome.
Mas prossigo, cachorro sem dono.
Dera ser eu Gentileza, que inspirou Marisa...
Fui a tinta que rasbicou o muro.
Oxigenio no espaço-tempo,
inexistente.
Fui os olhos obliquos,
mas não dissimulei,
dissimulou.
Pixei,
pintei,
explodi,
fiz-me cadeia.
De tudo, sei hoje eu,
de nada,
mas compreendo a ligação
e faço ciclico meu viver:
se não vinga o amor,
vinga a escrita
o poeta,
este que não traio,
que me vira comparação e me absolve desses meus erros tão falhos.