quarta-feira, 27 de julho de 2016

Não traia esse poeta.

Me coloquei a sonhar, ou a ver a realidade, quem saberá...
A quem direi o quanto gosto de ver essa realidade doída, sem parecer tão louco? Não me traga resiliência, não... Me traga esse coração todo perfurado à jorrar palavras banhadas desse sangue vermelho pulsante. Gosto disso. Como um caminhante gosta do alvorecer de inverno ainda que lhe doam os ossos.
Quero que me traga sua escrita, póstuma, cruel, real. Essa escrita carnal, traga-me por inteira, cada sílaba viceral.
Não traia esse poeta, quero tuas palavras a viajar na minha lingua e sua letra em minha derme como forma de dizer-me que comeria tudo que ha em mim, se assim fosse possível com conhecimento.
Não! Não traia esse poeta. Da-me tua escrita, mas não me tome os textos, esses que escrevo ao sentir que suas linhas me envolvem. Não traia esse poeta. De-me por inteiro, ao longos dos dias, mas não todos os dias.
Visto sempre essa capa dura, como enciclopédia a deslanchar palavras enfindas que Aurélio nenhum te descreveria.
Como se fosse eu mansão, ou senzala, não me importa, pisa com esses pés santos que escrevem caminhos com digitais singulares. Brinca como criança, me risca, por inteiro, com garranchos ou sussurros ou cochinhos, mas risca.
Faça o que bem entender que não me importo em ser, também.
Mas não traia esse poeta, o coração que pulsa em linhas tortas de papéis jogados, buscando essa dor de ser quebrado, de sofrer, de te olhar indo e deixando o rastro de frases-de-efeito feito com meu sangue-tinteiro. Não traia esse coração que so faz poesia pra morrer na sua boca e sentir dor ao ve-la ensinando ao mundo o nosso amor.
Faça o que bem entender, que faço entender-me bem. Mas não traia meu eu poeta, calando-se num dia de domingo, na nossa casa. Traia-me apenas se for pra dizer sim.

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