quarta-feira, 6 de julho de 2016

Maria

- To cansado Maria
- Meu nome não é Maria!
Eu tinha essa mania de inventar nomes.
- Mas seu nome me irrita...
- E o que é que não te irrita?!
- Coisas milimetricamente separadas.
O silêncio se fez presente, afinal que resposta seria mais vaga e sem sentido...
- Olha Maria, eu to cansado de ser pedra lima que amola a faca que me corta
- Pare de se fazer de vítima, vai...
- Oras, quem é você? Nem sabe o enrredo do que digo!
Como uma louca ela se levantou num súbito, jogou a garrafa contra o muro fazendo uma chuva de estilhaços.
- QUE PORRA É ESSA MARIA?
- MULHER! É só o que você sabe doer. Não me venha com seus papos de "cachorro-passa-fome".
Gesticulava como uma verdadeira maluca, tirando sarro da minha cara (eu adorava).
- MAS VEJA BEM...
- Não começa!
- Eu to cansado caralho! Lá tenho culpa de ser essa física mutável que elas não entendem?!
- Nem você se entende, para de gritar amor fedendo puteiro.
- Grito amor SIM!
A fumaça subiu, aquele trago forte de quem enche o pulmão pra não dizer nada.
Ai Maria....
Maria se calou.
O mundo conscentio, os cachorros da rua também... Até eu mesmo.
- Ok, não grito amor.
- Você é a porra de um porre, daqueles de vinho, que da uma dor de cabeça dos infernos.
- Não é pra tanto...
-  É sim, um bêbado de vodka barata que se diz tomar vinho nobre.
- Ora Maria! As vezes tomo vinho nobre. E as vezes me apaixono. Isso é tão inerente quanto...
- Não adianta falar difícil, nem me chamar de Maria. Você sabe que isso é só falta.
- Falta de que caralho?
Levantei da calçada como quem levanta atrasado numa segunda-feira.
- Falta de sessão da tarde, domingo no sofá, cafuné no ônibus... Não tem beleza nisso.
- Falta é faca de açougueiro na mão de vegetariano, Maria.
- Não serve pra nada?!
- Até serve, mas não é usada pra coisa certa...
- Já chega de tanta asneira, você só fala merda.
Me estendeu a mão ao me entregar uma garrafa, entendi o recado e apenas bebi.
- Tudo bem Maria.
- Mas que merda!
- Maria é um nome milimetricamente bonito.
- Me poupe.
- Ok, vou beber.
Mais um gole.
- E amar.
Outro gole.
- E te chamar de Maria.
Outra garrafa foi se ao muro, chuva linda de cacos,
caos.
- Tenho essa mania de teimosia, gosto de ser faca afiada que me corta o peito ao ser mal usada.
- Mas você não tava cansado porra?
- Mudei de ideia, essa conversa me deu fome de falta.
- Você é louco.
O mundo conscentio
Maria se deitou ao chão de brita.
Eu sorri.
- Pode ser....

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