Eu me fazia de pobre coitado. Era o que eu dizia, um pobre abandonado. Ar desesperado, cheirando a bêbado desolado. Cheiro de cachorro molhado, com palavras de filosofia barata.
Ela sempre vinha. Era assim que sempre vinha. Eu adorava. A insignificância de me importar com nada.
Apagava as luzes das ruas, me fazia de carro desgovernado, abaixa o farol e dizia: Guia!
Me dava a corda, eu me pendurava e dizia: Me sirva.
No fundo eu adorava. Me arranhava. Me chupava. Manchava a cama, o lençol, com tudo que é mais barato e impuro. Riscava minha pele de arranhões. Pintava meu corpo de chupões.
Pobre coitado, eu acordava sempre desnorteado, como um carro capotado. Bêbado desalinhado eu acordava como quem tinha apanhado. Cachorro molhado, eu acordava como quem vagara. Mas no fundo eu adorava.
Eu me fazia de santo bendito, me aprumava e enfeitava. Ela me vinha de batom que só ousava sujar num trago de cigarro, de marca ruim. Se insistisse muito, borrava na borda de uma lata barata de cevada.
Me fazia de maldito, tirava logo a sanidade, botava de canto. Sujava a mão, com toda maldade e me fazia de cão sem dono.
Só pra ver no peito;
Na boca;
Em mim;
Hematomas de um tombo de paixão.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Poema de encanto, pra ver se te encontro.
Seus olhos eram negros, feito a noite. Fundos feito
marca de açoite. Quando me fitava com
aquele olhar sem vida, arrepiavam minha alma até percorrer minha pele. Eu cambaleava entre a sanidade e o tesão. Eu cambaleava numa dança tão desritmada quanto
seus cabelos levemente ondulados, que iam e vinham, bagunçando tudo o que ela insistia
em arrumar, vinham e iam dando vida aos traços tão imperfeitamente lindos do
seu rosto. Tudo era negro, seus olhos, a pele morena, o cabelo escuro e sua
alma obscura.
Roça. Atiça. Vai embora sem despedida. Nunca me vem, ou se
vai. Nunca me tem, nem se aproxima. Não se doma o coração de um poeta. Ela nunca
escreverá uma palavra. Me tinha. Eu indomável poeta. Pedia que ficasse, sem
despedida, se ia.
Não me lembro em qual copo de bebida a encontrei. Nem em qual
esquina a vi. Não recordo qual penumbra guiou
minha mão em suas costas (que abrigavam minhas digitais em suas covinhas, ali
ao fim das costas). Nem sei o seu nome
(qual dos nomes da minha agenda?). Eu tenho seu número?
Foi a miragem mais
real que tive. A realidade mais surreal.
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