Eu me fazia de pobre coitado. Era o que eu dizia, um pobre abandonado. Ar desesperado, cheirando a bêbado desolado. Cheiro de cachorro molhado, com palavras de filosofia barata.
Ela sempre vinha. Era assim que sempre vinha. Eu adorava. A insignificância de me importar com nada.
Apagava as luzes das ruas, me fazia de carro desgovernado, abaixa o farol e dizia: Guia!
Me dava a corda, eu me pendurava e dizia: Me sirva.
No fundo eu adorava. Me arranhava. Me chupava. Manchava a cama, o lençol, com tudo que é mais barato e impuro. Riscava minha pele de arranhões. Pintava meu corpo de chupões.
Pobre coitado, eu acordava sempre desnorteado, como um carro capotado. Bêbado desalinhado eu acordava como quem tinha apanhado. Cachorro molhado, eu acordava como quem vagara. Mas no fundo eu adorava.
Eu me fazia de santo bendito, me aprumava e enfeitava. Ela me vinha de batom que só ousava sujar num trago de cigarro, de marca ruim. Se insistisse muito, borrava na borda de uma lata barata de cevada.
Me fazia de maldito, tirava logo a sanidade, botava de canto. Sujava a mão, com toda maldade e me fazia de cão sem dono.
Só pra ver no peito;
Na boca;
Em mim;
Hematomas de um tombo de paixão.
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