Eu lembro das coisas terríveis que ele me disse, dia após dias.
Relutei e lutei, até relatei aos meus demônios a carta póstuma que planejei.
Isso tudo foi tão inútil... Eu devia ter ouvido cada estrume, talvez tivesse entendido antes.
Mesmo sob armas carregadas o feto que eu era devia ter escutado, cada gatilho.
Quando se tampa o ouvido o mundo para de ensinar.
Não é fácil sobreviver por aqui, o direito de viver tentaram me tirar aos 10 minutos do primeiro tempo.
Mas em cada berro a vida tentou ensinar.
Eu devia te-lo ouvido mais. Acho que somos fruto do mesmo ventre traidor.
Ele sucumbiu e eu desço a ladeira.
Ainda que eu peça respeito, ao 20 do segundo tempo, penso que devo desculpas. Afinal, o mundo não é diferente dele. Eu que me atrevi demais e as beiras do Globo levam ao abismo.
O perdão que escorria nos olhos naquela tarde quente não me comoveram, mas o suspiro silencioso da alma inocente tiraram meu dedo do gatilho. É tudo combinado e nós lançamos os dados.
Eu devo desculpas, pois dentro de mim vive muito mais dele, as vezes me pergunto onde me encaixo e onde ele se exalta. Somos frutos do mesmo ventre traidor.
Eu disse que faria diferente, hoje a décima lata é um brinde a sua 10 reabilitação.
Eu não sei onde errei, mas devia ter escutado mais, talvez assim entenderia a melancolia como deve ser sentida.
Mas hoje não sinto nada, além do cansaço, e quando sinto é mais ameno que o abraço de quem não conheço.
Tudo faz sentido, não desculpo, mas sou parte do todo que me fez ver que ódio é questão de se aceitar.
Somos frutos do mesmo ventre traidor. Sucumbindo e gritando: olha a ladeira!