domingo, 28 de maio de 2017

Não tenha medo

Lembro quando me deram o barco e disseram: não tenha medo. Me lembro dessas palavras todas as manhãs. Me questiono se tenho coragem todo fim de tarde.
Ser covarde talvez seja a bênção de quem entende o medo. Ser corajoso talvez seja a ignorância de quem desconhece o medo. E eu o que sou então?
Sinto-me dono das minhas velas e, mesmo sem controlar o vento, não temo a rota. Conheço meu porto e sei a força das ondas. A coragem que me move é o farol que me guia, o Porto que dei o nome e as madeiras que piso firme.
Mas chega o fim de tarde e me questiono mais uma vez, sinto que meu barco é apenas uma canoa e a qualquer momento afunda.
Olho as estrelas, do mar aberto são tantas, se multiplicam no reflexo que vejo. Olho o horizonte, daqui é tudo distante. Tenho medo.
Sou dono de tudo isso, e pouco temo. Mas quando olho a imensidão disso tudo temo não ter cais.
Há dias que tento conversar comigo mesmo, mas a resposta entalada na garganta se faz ecoar.
Não confio em muita coisa, mas gostaria de acreditar dessa vez. Repito pra mim mesmo, como meu próprio papagaio, num ato de auto afirmação: o que é medo?
Eu não sou corajoso, como posso temer tão pouco?

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Tempo

A vida requer tempo. É tudo uma questão de tempo.
O problema é que tempo é uma ampulheta nas mãos de um senhor com Parkinson. A areia corre pra lá e pra cá. É muito quando se tem pouco, é nada quando se quer muito. E num segundo tudo se inverte.
O tempo tem sido cruel, espero que seja breve e ele se arrasta. Por um minuto vejo a areia se esgotando, mas as mãos tremem e a ampulheta está ao contrário. Nunca ha tempo.
Nos dias que os grãos parecem infinitos imagino o vidro se quebrando, os estilhaços dançando com os grãos e meu ser se esvaindo dessa linha gradual.
Seria algo relevante se entendêssemos o tempo e o matássemos num crime passional.
Mas, deixaríamos de existir? Mataríamos nós mesmos?
Minhas mãos trêmulas erguem a ampulheta contra a luz, os grãos são muitos....  O tempo está acabando!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Navalha

Traga -me a navalha, hoje vou dissecar a verdade. Abra uma água e aprecie o vinho.
Sem anestesia, ou bisturi com corte fino, traga-me a navalha que farei com que valha.
O problema da verdade é que ela é uma Quimera e corrói o coração dos desavisados. A mentira é muito mais sólida, tem terno e cartão de visita.
... Invoco a verdade
Invoco a verdade...
Cuidado com o que desejas.
A sinceridade é um cão bravo com aviso de cão manso e dilacera a mão dos tolos.
A mentira não... A mentira é só mais um participante dessa orgia esperando você gozar.
Traga-me a navalha, vou dilacerar algumas faces. Se eu abro a boca é pra cuspir marimbondos. Tome um Rum se quiser.
Não me pague com mentiras, chama-me de controverso, mas nunca encha o peito pra trazer-me mentiras.
Te traio com minhas verdades, mas nunca lhe serei leal com mentiras. Chame-me de Santo, se assim preferir.
Não acredite nessa faixada ilusória de que tudo é real por fora e bonito por dentro, é tudo podre e eu nunca disse o contrário. Planto flores pra amenizar nos meus as dores, mas nunca disse que eu era o botão. Solte esse espinho, o mundo mente pra si. Eu sou verdadeiro comigo.
Senta, você já está ludibriado.
- Ei, desça uma dose pro marujo.
- Como devo chama-lo, Capitão?
- Judas. Chame-o, quero brindar.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Vez ou outra eu queria saber o que pensa.
Quando fica séria, me olha, e não diz nada. Mas quando seus olhos abraçam os meus, sei exatamente o que pedem.
Em dias como esse, que o céu castiga, crio tantas cenas nossas que você poderia se tornar atriz.
Eu não sou bom em falar, mas você é ótima em escutar o silêncio. E adoro quando faltam palavras e meus dedos escalam sua cintura. Eu me calo e minha falta de palavras brinca com sua mudez. É uma sinfonia de suspiros.
Meus pés gelados agora insistem em ser mais gelados, porque quando vem pra esquenta-los também aquece o coração.
Todo esse clichê é engraçado, a gente ri de tudo, até de nós. Eu acho graça até da falta que você faz.
Lembro de você até na lista do mercado:
- sabonete
- desodorante
- Você
E acho graça de novo. Ser sério não é comigo, fujo do assunto. Mas você também não sabe ficar neles por muito tempo.
Eu queria saber o que tanto pensa quando tem medo. Do que tem medo? O que pode dar errado? Mas eu sei bem que, seja la o que for, tudo desaparece quando seus dedos cruzam os meus e brincam no ar.
Eu não sei se tenho sorte, talvez seja errado dizer isso, sorte é acaso. Você é mais que isso, você é a escolha mais certa. Eu já sei o que quer, antes de dizer. Você sabe o que eu quero, antes de mim.
To contando a saudade e colocando na conta, tem horas que falta papel.
Não que agora eu acredite num futuro, é que agora eu quero um futuro.
Eu não sei o que você quer quando muda de assunto, mas sei o que quer quando meu corpo encosta nas suas costas e minha boca beija seu pescoço.
Pois é, eu queria muita coisa. Não sei muita coisa. To aprendendo muita coisa. Todo aquele papo de ser alguém melhor pelo outro, não me comove. Quero ser melhor com você.
Nos dias que falta calma, sua voz é o efeito mais certo. E eu não sei como faz, como disse, não sei muita coisa.
Se eu pudesse escolher, escolheria mil vezes você (mesmo você achando que quero a apresentadora da tv).
Então cuida dos cachorros, prepara a janta, a espera faz tudo parecer distante, mas to preparando a vida pra nós.
Todo resto ja é teu.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Psicografia pt 2

Pedi licença pra entrar em casa.
Com os pés descalços pra sentir o chão.
Não sei como deveria ser a sensação, a muito não entendo o que devo sentir.
O coração quase para de tanto bater. Os lapsos cinapticos me dizem que está tudo bagunçado.
A cabeça não para, o peito aperta e não sei quando volto.
No meio de tanta dança, meus pés calejados fazem o ritmo da valsa rumo ao infinito. Bonito.
Pedi licença, mas nem sabia se entraria.
A entrada me vislumbrou, porém não sei se a vida me deixou entrar. Penso que cabulei a entrada. Dizem que pedi pra estar aqui, mas não me lembro, logo, nego a sentença.
Quando meus olhos param no infinito me questiono quantas vidas há em meio metro. E a dúvida me corroí quando penso que não sou parte de nenhuma delas.
Ontem, falando com Pedro, me questionou quem sou.
- Você. Respondi.
Desci aqui sem rota. O cometa que corta o céu, sem rumo pra cair.
Quando parei pra pensar no que é a vida, nunca mais levantei. Fiquei estático a porta como cachorro que não é expulso, mas não tem permissão de entrar.
Sinto o peso das decisões em meus ombros, como grilhões que prendem meu viver.
Eu pedi licença.
Não sei se limpo os pés ou tiro os sapatos. Não sei se deito o corpo ou a vida.
Não sei.
Licença, eu disse.
Por que a dúvida é mais pura que a resposta?
Por que vem? Por que fica? Por que existo? Pra que questiono?
Derrama-me a ignorância.
Como a lei da física, minha inércia é constante. Não sei quem sou, portanto nego meu ser. Não há filosofia maior que um ponto de interrogação.
A fé que me movia, hoje está alheia aquilo que visto. 3 contas não pagariam as tantas contas. Sem dor não alcanço a evolução e é insuportável ter um peito vazio.
Decretei prisão ao universo. Inafiançável. Minha cela não tem grade, o tempo não se aquieta.
Como pode um ser estar vivo e não saber que existe?