Lembro quando me deram o barco e disseram: não tenha medo. Me lembro dessas palavras todas as manhãs. Me questiono se tenho coragem todo fim de tarde.
Ser covarde talvez seja a bênção de quem entende o medo. Ser corajoso talvez seja a ignorância de quem desconhece o medo. E eu o que sou então?
Sinto-me dono das minhas velas e, mesmo sem controlar o vento, não temo a rota. Conheço meu porto e sei a força das ondas. A coragem que me move é o farol que me guia, o Porto que dei o nome e as madeiras que piso firme.
Mas chega o fim de tarde e me questiono mais uma vez, sinto que meu barco é apenas uma canoa e a qualquer momento afunda.
Olho as estrelas, do mar aberto são tantas, se multiplicam no reflexo que vejo. Olho o horizonte, daqui é tudo distante. Tenho medo.
Sou dono de tudo isso, e pouco temo. Mas quando olho a imensidão disso tudo temo não ter cais.
Há dias que tento conversar comigo mesmo, mas a resposta entalada na garganta se faz ecoar.
Não confio em muita coisa, mas gostaria de acreditar dessa vez. Repito pra mim mesmo, como meu próprio papagaio, num ato de auto afirmação: o que é medo?
Eu não sou corajoso, como posso temer tão pouco?
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