Eu não tenho tido muito tempo de escrever, é que de alguma forma eu tirei a mão do volante e deixei que o carro se guiasse. Impulso ou besteira, não sei ao certo, mas de certo que colido de frente ou capoto no barranco.
O que for pra ser, que seja. Estou inerte e a dor que me doía fez uma pausa. Acho estranho essa anestesia repentina, esse formigamento no peito já perfurado de tantas facadas da querida amiga vida. Todavia não me permito olhar pro freio ou desviar da colisão, apenas observo o horizonte esperando o momento de limpar o sangue e reconstruir-me.
De pronto, me ergo como num solavanco socando os vidros em repúdio do que sou, mas o fervor que sobe em meus dedos me lembra que estou vivo e respiro.
Dizem pelos pedágios a fora que é preciso ser corajoso pra enfrentar a estrada na calada da noite. E eu que sempre tive medo do mundo, enfrentei o abismo por ter medo de mim.
O passo inicial foi um sopro de coragem, um devaneio súbito que me acometeu quando percebi que eu havia me tornado a quimera que me absorveu a vida toda. É possível se tornar a pior parte de si mesmo?
Guio agora esse carro em destino a rumo do nada esperando a tao esperada colisão pra ver se nos estilhaços do chão encontro a parte que se desprendeu de mim e anda vagando por ai.
Consciente do que fiz, não me arrependo, essa ebulição que acontece em mim, fazendo meu pensamento um liquido fluidico, está fervendo a cada km rodado. Quanto mais me afasto do ponto de partida, sinto a conexão falhar (entre mim e o que era pra ser/ou fui). Vou escurecendo a visão com a luz forte do farol e deleitando meu corpo peso pena em existencialismo.
Ou colido, ou capoto no barranco.
A chuva de estilhaços vai fazer brilhar o céu no mundo todo, e então, não terei mais medo de mim.
terça-feira, 23 de agosto de 2016
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