quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Todo dia o porteiro tranca a porta as dez, e me dá boa noite.
Todo dia eu estou fumando um cigarro e olhando a fumaça. Gosto de ver a fumaça.
Mas hoje, eu conversava com Chico.
E recitava algum poema sem nexo.
Todo dia devia ser assim.
"Meu sangue errou a veia e se perdeu"
Todo dia eu tranco a porta pra dormir, e fumo só meio maço. Ontem ouvi cazuza e dormi de porta aberta.
Perdi o controle da minha vida. Eu cheio das manias, pisei na linha e esqueci de tocar em um orelhão.
Por iniquidade das linhas, turvei e me curvei.
Lembro-me de um dia ter dito seu José, do bicho, que cachaça e amendoim curavam tudo. Mas hoje tomei cerveja pra ver doer.
Não que eu gostasse, claro. Mas nunca fui da cachaça, ou do acerto.
Que sei eu disso tudo, é que a vizinha riu de mim quando gritei "puta merda"...
Foi um grito sincero, confesso.
O porteiro fechou a porta as 22h, faziam vinte e quatro horas, e eu havia falhado.
Mas agora falhei, ao escrever.
Mas ora, o que mais faria eu?
Apenas escrever, e escrever.
Dentro da sobra que há no meu peito encharcado, a solidão virou um comichão, feito cupins a devorar meus papéis. Meros sinais, marcados em folhas ao som de Tim Maia ( ou qualquer outro som drastico).
É tudo luz baixa, daqui de onde estou, e o  vulto da lerdeza disso tudo ficou no meu olhar, como marca do fracasso.
Mas o porteiro fechou a porta as 22h como todo dia, não ha nada de novo, amanhã será igual.

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