Onde moro as pessoas não olham
para o lado antes de atravessar a rua, elas confiam mais em deus que em si mesmas.
Onde morro, as pessoas não acreditam na vida, talvez porque saibam que só um
milagre para que as coisas melhorem.
Não adianta mandá-las “carpir
uma data” quando estiverem falando da vida de alguém, carpir é o que mais fazem
todo dia, o dia inteiro, e não há nada de tão grandioso em tirar umas mudas aqui
ou ali, já falar da vida dos outros... Sabe como é, Joaquim não sabe carpir tão
bem quanto eu.
De onde sou as pessoas bebem em
demasia, não por ser bom o amargo da pinga, por ser doce o gosto da feliz
embriaguez. Por onde piso as pessoas não
se importam com escuridão, é tão deles esse habitat seguro, é tão nossa essa
solidão.
Por onde vivo sorrisos são
comprados, por notas forjadas de um trabalho tão suado. Gargalhadas por um pão
com ovo e uma cerveja barata.
De onde sou, não há amor pra
esbanjar, talvez pelo tanto que se passa a observar. É muita vida, pra pouca
gente, pouca costas pra tanto fardo. Ter brilhos nos olhos, aqui, é vaidade do
moço embecado, de gente que não sabe o quanto dói atravessar sem olhar, amar
sem medir, até cair em qualquer mesa de bar, de perna quebrada, bolso furado e
infelizmente, peito frustrado.
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