sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Genes são ligações, como aquelas que nunca fiz.



Somos
todos,
no
fim,
filhos
do mesmo ventre traidor¹.

Eu traí a dor.
Pensei não senti-la,
hoje me deleito em seu colo encantador.
Me tira a visão, pertuba o que há de mais belo.

Tudo que respira é feito de dor,
falhei ao dizer que não sinto,
falho agora ao senti-la.

Talvez hoje, sejamos a junção de tudo que podiamos ter sido
e não fomos porque seu telefone nunca tocou.
A gente sempre acha que a dor é visita incoveniente,
mas agora ela é visita que eu convidei.

Do ventre que nos criou,
carrego o gene,
ligação,
corre em mim teu sangue,
tua casa não recebe mais carteiro algum.

Eu deveria te dar o mais belo poema,
por ser apenas dor,
essa que faz o poeta que sou.

Deveria te dar o melhor do poeta que sou,
que é pele e dor.
Mas a dor convidei pra tomar café amargo e pão seco,
matar a fome.

Mas tudo que respira é feito de dor,
tudo que escrevo é dor,
somos,
até o momento, dor.

Mas respiro e te agradeço nessa carta que nunca chegará.
Pra ti, essa carta póstuma.

¹ http://pausaprofuneral.blogspot.com.br/2017/06/filhos.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário