domingo, 2 de abril de 2017

Pedro fala demais.

Eu não falo.
Esse peito gaiola tem um pássaro que se debate contra as grades, mas não sai quando arrebenta.
- Onde vai?
- Não sei.
- Volta.
- Não.
- Você ta pirando.
-CALEM A BOCA, VOCÊS FALAM DEMAIS.
- E você nunca fala nada.
Seria mais fácil se o mundo escutasse o silêncio, mas nem eu me escuto. Os gritos mudos desses gemidos em tarde escura são como garfos em prato e sinto meu peito como quadro negro, os pensamentos são unhas.
Se chama agonia.
O pássaro se debate, minha fé é pouca e digo ser grande pra não deixar a raiva transparecer na pele fazendo erosões nos dedos.
O que você sabe de mim? Você que disse que eu não chegaria. Você que disse que o inferno é pequeno. Você que não conheceu o demônio. O que você sabe?
Existem mais verdades em minhas mentiras, é que acredito nelas. Todos meus silêncios são singelos e confesso que a pintura em branco é bela.
Canto "Ne me quitte pas" soltando sua mão. Sou um Van Gogh, sei que a morte me é mais grata que a orelha sem pulso, em vida.
O que você sabe?! Não venha me dizer não, eu sei de mim, e o enredo é triste. Você não sabe. Não sinta dó. Eu não preciso de mais cabeças estourando, já foram 15 pequenas cabeças, dóceis cabeças, inocentes cabeças. Eu vi.
Não me peça pra ser lógico, ou sóbreo.
Eu só não quero lembrar da Páscoa, ou sucumbir nela.
- É culpa da lua.
- cale a boca Pedro, você fala muita merda.
O que você sabe dessas coisas todas? O que você sabe de mim?
- Sei que você finge demais, no fundo ainda se importa.
- Cala boca Pedro.
Pedro sempre fala demais. E talvez esteja certo. Pedro é o pássaro, eu sou a gaiola.
Tem dias que Pedro me sufoca.

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